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Por que o Flamengo, octa, é o maior campeão de Brasileiros

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Sempre que acaba o Campeonato Brasileiro, eu coloco no Twitter minha listinha atualizada de campeões. E sempre dá bafafá. Ela é assim:

8- Flamengo

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7- Corinthians

6- Palmeiras e São Paulo

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4- Vasco

3- Cruzeiro, Fluminense e Inter

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2- Santos e Grêmio

Os torcedores do Palmeiras dizem que “quem tem mais, tem 10”. São os que ficam mais bravos comigo, me xingam para caramba nas redes sociais. Como se minha percepção fosse algo mais que isso. E como se a grandeza do Palmeiras dependesse disso.

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O Campeonato Brasileiro começou em 1971. Foi isso o que eu aprendi e com essa informação convivi ao longo da vida toda. Nunca houve debate. Nunca. Nasci em 1979, me conheço por gente e acompanho futebol desde 1985, por aí. Frequentei escola, faculdade, ambientes de trabalho. Nunca houve esse debate de unificação.

Quando o Palmeiras foi campeão com aquele timaço em 1994, meus amigos e familiares palmeirenses comemoraram o tetracampeonato sem qualquer problema. Felizes da vida. Ninguém se considerava octa. Ninguém rasgou jornais e revistas reclamando do termo “tetracampeão” no pôster – os mais jovens nem devem entender isso o que estou falando. Os times campeões eram eternizados em pôsteres que podiam ser comprados nas bancas de jornal.

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Não estamos falando de um debate que era parte do nosso dia a dia. Absolutamente ninguém colocava em dúvida a lista de campeões brasileiros a partir de 1971.

E isso não significa esquecer o passado. Eu sou torcedor da Portuguesa. E a Portuguesa foi duas vezes campeã do Rio-São Paulo em 1952 e 1955. Era o campeonato mais forte do Brasil na época. O time era um dos mais fortes do país e cedia jogadores à seleção brasileira. O Rio-São Paulo deveria ser considerado “Brasileirão”? Não, não deveria. O Rio-São Paulo era o Rio-São Paulo. E ponto.

Quem pesquisar, saberá que o Rio-São Paulo era o campeonato mais importante dos anos 50, início dos 60. Já o que renasceu na virada do século não tinha importância alguma. A história se conta, se explica, se contextualiza, não se enfia goela abaixo.

Ninguém está apagando a história. Cabe a nós lembrar o que aconteceu na história. Os grandes Palmeiras e Santos e Botafogos e Cruzeiros dos anos 60 estão na história. Sempre estiveram. Foram alguns dos melhores times justo da única época em que o Brasil foi realmente dominante no futebol mundial. Aquele grande Cruzeiro escancara para o país todo que o Rio-São Paulo não bastava, já havia vida fora dos dois maiores centros e era necessário expandir (é quando vem o Robertão).

Esses times nunca precisaram de uma canetada política da CBF para terem reconhecimento. No mesmo ambiente em que cresci sabendo que o Brasileirão havia começado a ser disputado em 1971, eu sempre soube que o Santos de Pelé ganhava tudo o que jogava (e mais um pouco), que o Palmeiras tinha a Academia, que o Botafogo tinha Garrincha, que o Cruzeiro tinha Tostão. Eu sabia da importância dos Estaduais e, também por isso, não desprezo o que hoje muitos desprezam.

Eu conheço muito bem a história do futebol brasileiro. Ela está contada em vários livros, revistas, jornais da época e está viva na memória de quem viveu aquilo e de quem absorveu aquilo vindo de seus avós, pais, irmãos.

O que a CBF fez 10 anos atrás foi uma jogada política. Uma jogada que envolvia a busca por apoio de clubes grandes em uma enorme queda de braço por poder que estava sendo travada. Naquele momento, discutia-se o modelo de negociação dos direitos de TV, discutia-se quais seriam os estádios da Copa do Mundo no Brasil, discutia-se quem teria o poder e quem não. É neste contexto que surge a unificação, ela não é fruto de um debate que permeava o futebol brasileiro.

A unificação foi tão “nas coxas” e autoritária que não diferencia coisas que foram muito diferentes: a Taça Brasil, que tinha muito mais a ver com o que hoje é a Copa do Brasil, e o Robertão, este sim já com cara de Campeonato Brasileiro (e disputado desde 1967). Tanto que a canetada gera um ano com dois campeões iguais (o Palmeiras em 67). Se Taça Brasil e Robertão tivessem sido colocados em cumbucas diferentes, talvez hoje houvesse menos discussão em torno do tema.

A canetada da CBF, diga-se, tinha até a ver com a histórica luta entre Flamengo e São Paulo pela Taça das Bolinhas – já que o São Paulo pleiteava o troféu por tê-lo conquistado cinco vezes de forma alternada antes que todo mundo. Só que o Flamengo já o tinha feito em 1992. No processo de unificação, em meio à luta pelo poder no Clube dos 13, a CBF tenta “encerrar” o problema considerando tanto Flamengo quanto Sport campeões de 87.

A Copa União foi um campeonato elitista, safado, que podemos criticar por todos os ângulos possíveis. Um grupelho de clubes mais importantes do Brasil que se consideravam acima do bem e do mal e que podiam deixar de fora da brincadeira tantas agremiações importantes – algumas, um ano antes, eram inclusive mais fortes (basta lembrar que Guarani era o vice-campeão brasileiro de 86).

Mas aquilo, quer queira quer não, foi o Brasileiro de 1987. Não me importa muito o que diga o STF, porque para chegar até ali houve traições, desmandos e uma assinatura de um gângster chamado Eurico Miranda que não havia sido autorizada pelos outros clubes. Quem estava vivo em 87, p da vida ou não por ter seu time deixado de fora do campeonato, sabe que aquele era o Brasileiro.

O Flamengo foi oito vezes campeão do que o país inteiro chamava de Brasileiro. Eu sei muito bem que minha listinha aí acima é a de todos os flamenguistas. Sei que corintianos e são-paulinos também gostam dela. Sei que vascaínos, botafoguenses e tricolores cariocas não gostam. Sei que os gaúchos não ligam. E sei que palmeirenses e santistas ficam loucos da vida. Infelizmente, é assim que gira a roda do futebol brasileiro. Cada um olha para o seu interesse, para o que funciona melhor para a narrativa do seu próprio clube.

Não adianta me chamar de parcial, como tantos fazem (outros, mais brilhantes, me “xingam” de imparcial – ou seja, nem sabem o que significa a palavra). Não é porque um jornalista torce por um ou outro clube que a opinião dele deva ser considerada ou desconsiderada. Os bons jornalistas têm compromisso com a credibilidade, a informação e com o que consideram que está certo. Fuja de jornalistas-clubistas, em vez de venerá-los só porque o clube dele é o mesmo que o teu. E não xingue jornalistas que fazem o trabalho corretamente, só porque a análise ou opinião dele te desagrade.

Cresci como torcedor da Portuguesa e meu time tem zero títulos brasileiros na lista unificada e zero na antiga, a que valia até 2010. Portanto, não tenho interesse algum. Apenas tenho memória. E não considero que uma canetada política e mal feita por parte de cartolas que buscavam apoio político, sem nenhum tipo de debate e contra ponto, seja exatamente uma justa revisão histórica.

Hoje, temos no Brasil uma situação bizarra. Mais uma, apenas. Cada um acha uma coisa. No país em que uns tomam vacinas, outros não, uns usam máscara, outros não, uns pagam impostos, outros não, nada mais natural que cada um tem sua própria lista de campeões brasileiros. Eu respeito todas elas. Aliás, gosto muito desta postagem feita pelo amigo Mauro Beting aqui neste mesmo UOL.

A CBF é um cartório rico (na conta bancária), mas falido (moralmente). Quem quiser, que compre esse carimbo oficial. Eu não compro. Respeito, mas não compro. Na lista que aprendi a respeitar e saber de cor na infância, adolescência e juventude – a lista da vida real -, quem tem mais, agora tem 8. E é o Flamengo.

Ah, e antes de encerar, vou dar uma notícia para vocês. Daqui a alguns anos, se os pontos corridos ficarem consolidados, como parecem estar, vocês verão que aparecerá uma outra lista. A de campeões brasileiros somente na era pontos corridos.

Essa tem: Corinthians com 4; Cruzeiro, São Paulo e Flamengo com 3; Fluminense e Palmeiras com 2; Santos com 1. Até que se prove o contrário… porque sabem como é. Tem gente que não põe o Corinthians como campeão de 2005. 🙂

Fonte: Julio Gomes, UOL

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